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Paulo Roberto Faria de Castro


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Vida ordinária

Autor: Paulo Roberto Faria de Castro

Ordinariamente (habitualmente) seguia de forma ordinária (medíocre) a sua vida desgraçadamente vulgar, comum, ordinária.

Impingido pelo destino à condição de ordinário, a sua insignificância em relação aos demais não provocava nenhuma revolta, nenhuma indignação, afinal, desde a tenra idade, pressentira que sua existência estaria vestida pelo avesso da melhor sorte.

Na fase adulta, a sua única certeza era de que dias piores viriam. E como chegaram. Vieram em uma profusão assustadora, na forma e no conteúdo.

Descansava seu corpo alquebrado num barraco, tentando conciliar o sono em vão. Morava na parte mais alta e acidentada do morro, cujo acesso era por uma intrigada rede de vielas bêbadas e disformes.

Nas últimas semanas, a insônia, essa filha bastarda do sono cumpria a determinação paterna à risca, impingindo o seu transtorno. Privando aquele deserdado da sorte do estágio fisiológico reparador que é caracterizado pela insensibilidade dos sentidos e pelo repouso que proporciona.

Ao longo de toda a sua existência sempre fora punido com sonhos em preto e branco, jamais a cores, mas, agora, nem aqueles sonhos de décima-quinta categoria.

Apesar de tudo, resistia e sobrevivia fazendo os biscates possíveis naquela comunidade paupérrima e por serem quase indigentes, pagavam pelos seus serviços valores miseráveis.

Como não fossem suficientes as suas purgações externas, punia o seu corpo com o vício dos cigarros baratos e das cachaças suspeitas, desta forma, pela fumaça incensava e pelo líquido encharcava sua alma, purificando-a.

Era um anticlerical extremado, mas de uma fé inabalável no Criador.

Insone e ofuscado pelos raios solares ao sair de seu barraco, não percebeu os movimentos das forças policiais e as do poder paralelo, o que foi fatal.

Velado por poucas pessoas numa das alamedas do cemitério, pois a despedida numa capela exigia recursos financeiros que não existiam, foram surpreendidos por gritos de uma mulher que em dedo em riste, gritava: Ordinário! Ordinário!

Ficaram perplexos. Afinal o termo ordinário definia o caixão ou o defunto?

http://www.artigonal.com/cronicas-artigos/vida-ordinaria-4670342.html

Perfil do Autor

Paulo Roberto Faria de Castro Rio de Janeiro, RJ, Brazil Palavras de um mero velho aposentado, não vivo, agonizo com os proventos do INSS. Não tenho tribuna para exercer o direito à voz. Aliás, por questão de honestidade, poderia utilizar-me das tribunas históricas – as caixas de bacalhaus, de legumes ou de frutas, nas praças, mas, na minha idade provecta, falta-me ânimo e sobram-me doenças, herdadas por uma genética degenerada, que concorre, apenas e tão somente, com o sólido mau-caratismo dos homens públicos desse país. Utilizo-me desta Página e do www.teimosiadeumanalfabeto.blogspot.com (Crônicas)

www.desqualificandoconto.blogspot.com (Pseudos Contos) para cometer assassinatos à lingua de Camões.

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