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BipolaridadeAutor: Paulo Roberto Faria de CastroAquele indivíduo sofria de bipolaridade, cujo significado pode ser entendido como a existência de dois pólos contrários num corpo, segundo a física, mas no caso dele, era psíquica. Tinha duas personalidades, uma doença que é caracterizada pela uma variação extremada do humor que tem duas fases, a primeira, maníaca, com hiperatividade e grande imaginação, a segunda, de depressão, de inibição, lentidão para conceber idéias e realizá-las, sempre acompanhadas de ansiedade ou tristeza. Vivia sempre num grande dilema: ele não sabia se num determinado instante era ele, o maníaco, ou o outro, o depressivo. Em comum os dois tinham a opção pela vida de eremita. Num certo dia, não resistindo à opressão maior do seu eu maníaco, o eu depressivo acabou fazendo a viagem proposta, ou melhor, imposta. A viagem foi catastrófica pelo pugilato de idéias entre as duas personalidades que as deixou combalidas. Os superegos que também sofriam de uma insânia qualquer não usaram as suas ascendências sobre os seus subalternos, os egos, para interromperem aquela luta fratricida. Exaurido pelas forças despendidas aquele indivíduo (o apático) foi da prostração ao sono profundo em ínfimos minutos. Aquele corpo abatido e deteriorado pelo avançar da idade tornara-se mais caquético por suportar aquelas personalidades conflitantes. Nos raros momentos que poderiam comungar da mesma idéia, um sempre estabelecia o contraditório pelo prazer de manter o dissenso. Enfim, tinham a capacidade de discordar deles próprios, apenas para perturbar a paz do outro. Foi (o apático) ou foram (o maníaco e o depressivo) para um sítio, no interior do Estado do Rio de Janeiro. Em certo momento, com aquele tempo abafadiço, foram em direção à margem do rio e sentaram-se. As retinas registraram que em ambas as margens existiam verdadeiros remansos. As águas em quase repouso traziam uma paz, uma tranqüilidade, contrapondo-se a vida agitada do rio em sua parte central, onde a inquietação do volume d'água encontrava resistência de fragmentações de rochas com tamanhos e formas variadas, gerando um barulho próximo de um curso d'água encachoeirado. Naquele momento (o apático) abandonou sua crise de identidade de não saber quem era. Os egos, talvez, pelo cansaço, mas certamente pelos fármacos de tarjas pretas ingeridos por prescrição médica, estavam dóceis. Aquele indivíduo bipolar, com duas personalidades antagônicas ficou uma hora observando aquele local até que suas vistas dirigiram-se para os galhos das árvores que avançavam sobre o rio e constataram dezenas de sacos plásticos perdurados neles. Ficou perplexo com aquela cena anômala, grotesca, produto de uma enchente de meses atrás. Efetivamente, a visão daquela dicotomia causou-lhe certa aflição. Aquela sensação térmica permanecia constante, as folhas e os sacos plásticos estavam inertes por não correr uma mísera brisa. Deslocou seu olhar para a margem oposta que ficava uns 150 metros de distância e o que viu foi uma aberração sem precedentes, pois, um bando de urubus tomava banho no outro remanso, pareciam patos, mergulhando incessantemente e, batendo suas asas dentro d' água. Aquela imagem contrariava em tudo a natureza daquelas aves que se alimentam de carnes em decomposição e sofrem de uma "quase" hidrofobia. Ao assistir em ambas as margens situações análogas às suas, de duplas personalidades, galhos com sacos plásticos, e urubus tomando banho, dirigiu-se a si próprio e disse: "Se eu fico indeciso que eu não sou eu, sempre achando que sou o outro, agirei como os galhos e sacos plásticos, assim como os urubus a se banharem, eles não se incomodam com as dicotomias e são irracionais, portanto, deixarei minha racionalidade evoluir para a irracionalidade. E ponto final." De forma consciente pegou os remédios prescritos pelo psiquiatra e jogou-os no rio. Naquele momento, os dois egos ou suas duas personalidades fizeram algo impensável, inimaginável, concordaram entre si e usaram a mesma expressão de forma uníssona: "Isso vai dar bode". E deu.
http://www.artigonal.com/cronicas-artigos/bipolaridade-4492006.html Perfil do AutorPaulo Roberto Faria de Castro Rio de Janeiro, RJ, Brazil Palavras de um mero velho aposentado, não vivo, agonizo com os proventos do INSS. Não tenho tribuna para exercer o direito à voz. Aliás, por questão de honestidade, poderia utilizar-me das tribunas históricas – as caixas de bacalhaus, de legumes ou de frutas, nas praças, mas, na minha idade provecta, falta-me ânimo e sobram-me doenças, herdadas por uma genética degenerada, que concorre, apenas e tão somente, com o sólido mau-caratismo dos homens públicos desse país. Utilizo-me desta Página e do www.teimosiadeumanalfabeto.blogspot.com (Crônicas) www.desqualificandoconto.blogspot.com (Pseudos Contos) para cometer assassinatos à lingua de Camões. Leia também: .................................................................................................................................................. |
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